Mulher Cirurgiã

Entrega para Estados Alterados de Consciência

April 10, 20268 min read

Conforme colocado em blogs anteriores, o trauma cirúrgico é uma das categorias mais complexas de trauma a ser tratada devido aos vários fatores que se combinam em uma cirurgia. A imobilização, os estados alterados de consciência, a lesão física, a sensação que o corpo tem de estar sendo atacado, bem como as conversas, às vezes impensadas, que acontecem na sala de cirurgia, podem trabalhar juntos para criar um emaranhado de fatores traumatizantes.

Neste blog, abordarei os estados alterados de consciência que acompanham as cirurgias e as maneiras de se preparar para eles, de modo que sejam menos assustadores e não deixem uma marca duradoura.

Respostas Diferentes a Estados Alterados

Nem todo mundo fica assustado com estados alterados de consciência. Para algumas pessoas, por exemplo aquelas que podem ter experiências com práticas xamânicas ou de sonhos, imaginação ativa ou substâncias que alteram a consciência, a mudança de estado pode ser algo que elas aceitam facilmente, e a qualidade diferente da anestesia pode ser apenas outra variante de uma experiência que elas já sabem integrar.

Para outras pessoas, entretanto, a experiência dissociativa da anestesia pode ser muito assustadora. À medida que elas se sentem afastando-se do corpo, elas podem temer que estejam morrendo ou que não consigam voltar. Como afirmei em um blog anterior, as transições em uma experiência cirúrgica são extremamente importantes. Se estivermos assustados ao recebermos a anestesia, o medo deixará sua marca em toda a experiência cirúrgica e será a emoção predominante que sentiremos ao acordar. Se nos sentirmos confiantes, seguros e protegidos ao cairmos no sono anestesiado, é essa sensação de confiança e segurança que marcará toda a experiência.

Preparando para a Cirurgia--Confiança diante da Anestesia

Como, então, podemos fazer o melhor para garantir essa confiança ao adormecermos para a cirurgia?

Há várias possibilidades.

Uma delas é a presença de um amigo ou aliado de confiança na sala de cirurgia conosco - ou de nosso/a médico/a, se tivermos a bênção de ter um relacionamento de confiança e segurança com ele/a. Lembro-me de um amigo que fez uma cirurgia no ombro e me contou que a última coisa que ouviu antes de cair na anestesia foi o médico lhe dizendo: “Não se preocupe. Nós vamos cuidar muito bem de você”. Isso é ideal e torna muito mais fácil render-se ao que vem a seguir.

Para aqueles que têm crenças espirituais, pode ser útil pedir para seus amigos e familiares que orem para você durante a cirurgia, e para você também de estar com uma oração em mente nos últimos momentos de consciência desperta antes que a anestesia tome conta.

Outra maneira de trabalhar com o estado anestesiado é de praticar uma meditação, nos dias que antecedem a cirurgia, que o ensine a se desconectar e retornar ao seu corpo. Dessa forma, quando a substância da anestesia começar a afetar seu sistema, você ja terá prática em se render à qualidade diferente de consciência que ela traz.

O que segue abaixo é um roteiro para uma meditação simples e preparatória que proporciona a experiência de sair do corpo e retornar

Esta meditação está também disponível num formato gravado junto com esta série de blogues.

Meditação Preparatória Para Estados Alterados

Imagine que é um dia ensolarado e que você está deitado no chão, num gramado bem macio. A luz quente do sol beija seu rosto e o peso do seu corpo é suavemente sustentado pela terra abaixo de você. Uma brisa suave sopra na grama e, acima, você pode ver a extensão do céu azul, pontuado por nuvens brancas e fofas. Você as observa acima de você, apreciando a maneira como elas se formam e se dissolvem novamente, e depois se fundem em outra forma.

Enquanto observa, você começa a sentir que é como uma nuvem. Sua substância se torna nebulosa e menos tangível do que o normal. Você sente os contornos de seu corpo se tornarem menos definidos e, ao fazê-lo, sente o peso de seu corpo se tornar cada vez mais leve. Lentamente, como uma nuvem, você começa a subir, saindo da grama e entrando no céu azul. Quando olha para baixo, vê seu corpo físico, ainda deitado na grama verde e macia. Ele parece dormir pacificamente enquanto você sobe e o deixa para trás. A brisa brinca com você e você se sente flutuando, primeiro em uma direção e depois em outra. Observe como é agradável a sensação de flutuar, de não ter peso. Todas as dores que você possa ter sentido no corpo se dissipam à medida que você flutua para cima e se torna menos sólido e mais fluido, até que você se vê flutuando no alto do céu, entre todas as outras nuvens.

Aproveite a sensação de ser uma nuvem. Observe como, quando seus contornos encontram outra nuvem, eles se dissipam e reconfiguram. Talvez parte de você fica com a outra nuvem e parte da outra nuvem venha com você. Você está livre e seguro, não mais preso ao peso ou à forma de seu corpo, livre para formar novas formas - para pertencer ao céu.

Aproveite todo o tempo que quiser para desfrutar da sensação de flutuar, de ter contornos e limites mais permeáveis, de se sentir leve e fazendo parte do elemento ar.

Agora chegará um momento em que seu corpo abaixo de você, deitado na terra, na grama verde e macia, começará a chamá-lo. Você sente a puxada desse chamado e lentamente, lentamente, começa a sentir os contornos do seu corpo de novo. Você não se mistura mais com as nuvens. Você começa a se assentar suavemente de volta à terra, como uma folha que cai no outono, indo para um lado e para o outro à medida que se aproxima cada vez mais do seu corpo físico. À medida que desce, você sente que a sensação de peso começa a voltar, e essa sensação de peso o chama de volta para o seu corpo, até que você se vê pairando sobre ele e, em seguida, deslizando suavemente de volta para ele com a sensação de peso aumentando, e a sensação de seus contornos e limites retornando.

Agora, abra seus olhos, se eles estiverem fechados, e olhe ao redor. Quais são as cores que você vê? As formas? Observe como o mundo se parece a partir de onde você está.

Mexa os dedos das mãos e dos pés até sentir que os habita totalmente e, em seguida, dobre lentamente os joelhos até poder apoiar os pés na superfície sobre a qual está deitado. Observe a sensação do peso de suas pernas descendo até a sola dos pés. Tome o tempo necessário para se sentar e, mais uma vez, olhe ao redor do espaço onde está, observando formas, cores, cheiros, sons, percebendo como é ver o mundo pelos olhos do seu corpo. Quando estiver pronto, fique de pé, dê uma pequena sacudida em si mesmo e bata os pés suavemente no chão algumas vezes. Você acabou de ir e voltar!

Algumas Reflexões sobre a Entrega e uma História de Providência Divina

Somos uma cultura que valoriza mais o controle do que a entrega. Somos treinados para fazer, para produzir, para sermos capazes e eficazes, em vez de nos entregarmos. Isso pode nos servir na vida empresarial, mas não nos ajuda a nos entregarmos a um estado alterado de consciência.

Há algum tempo, numa maratona de TV, assisti a Harry Potter, As Relíquias da Morte 2, e vi novamente a cena em que Harry encontra o professor Dumbledore na vida após a morte. Quando Harry decide voltar para Hogwarts (desculpe o spoiler para quem ainda não viu o filme!), as palavras de despedida de Dumbledore para ele são: “Não esqueça, que em Hogwarts, sempre será dado ajuda a quem precisar”. Acho que essa é uma frase adequada para a história que quero contar aqui.

Há muitos anos, acompanhei minha mãe em uma cirurgia de prótese de coxa-femoral. Fui com ela à entrevista pré-cirúrgica com o médico dela e conversei com ele sobre algumas das nossas solicitações. Uma delas era que eu pudesse ficar com minha mãe enquanto a anestesia fizesse efeito, para que ela pudesse dormir com a minha presença para ajudá-la a ficar calma e se sentir segura. O cirurgião nos garantiu que isso seria possível.

Chegou o dia da cirurgia. Lá estava minha mãe, vestida com a bata cirúrgica, touca e meias. E lá eu, pronta para acompanhá-la pelas portas duplas amedrontadoras até a sala de cirurgia para receber a anestesia--como o cirurgião prometeu que eu poderia fazer. O cirurgião não estava presente, e a equipe do hospital me disse com firmeza que isso era contra a política do hospital e que eu precisava me despedir da minha mãe aqui. Olhei para ela e decidi não fazer alarde. Pensei que se eu protestasse, isso a perturbaria, e ela já estava nervosa. Então, deixei que a levassem embora e só a vi depois que a cirurgia terminou e a levaram para o quarto.

No final das contas (“em Hogwarts sempre é dado ajuda para quem precisar”), a enfermeira de plantão para a cirurgia era uma amiga da comunidade de tango dela. E um dos motivos pelos quais minha mãe queria colocar a prótese era para que ela pudesse continuar dançando tango - o que ela fez por muitos anos após a cirurgia. A enfermeira, sua amiga e alguém que simbolizava a dança que ela queria fazer quando estivesse curada, segurou sua mão enquanto ela dormiu, e ela entrou no estado anestesiado se sentindo segura e protegida.

Pensamentos Finais

Chega um momento, depois que nos preparamos de todas as formas possíveis, em que é hora de abrir mão de controle. Se você tem crenças espirituais, soltar-se com uma oração para qualquer poder que lhe seja caro pode ser uma boa maneira de entrar na zona do crepúsculo. E simplesmente confiar em seu próprio destino, em sua própria vontade e desejo de se curar também pode ser uma boa maneira de entregar-se.

Ajudando a Cura através de Todos os Níveis do Ser Humano.
Ao longo de quase cinco décadas tenho o privilégio de guiar meus clientes e alunos nas suas jornadas de cura e evolução. Tenho certificações em Rolfing®, Rolf Movement®, Somatic Experiencing® Método Bates de Visão, Terapia Artística e Aconselhamento Biográfico Antroposófico. Sou docente no nível avançado de Rolfing® e Somatic Experiencing® e durante os últimos 35 anos viajo o mundo dando formações destas duas abordagens em cinco continentes além de manter uma clínica para clientes particulares.

Sou também co-fundadora da Associação Brasileira de Rolfistas e da Associação Brasileira do Trauma, e continuo ativamente envolvida com estas duas organizações.

Meu compromisso e minha alegria é com a sua integração e seu florescimento.

Lael Katharine Keen

Ajudando a Cura através de Todos os Níveis do Ser Humano. Ao longo de quase cinco décadas tenho o privilégio de guiar meus clientes e alunos nas suas jornadas de cura e evolução. Tenho certificações em Rolfing®, Rolf Movement®, Somatic Experiencing® Método Bates de Visão, Terapia Artística e Aconselhamento Biográfico Antroposófico. Sou docente no nível avançado de Rolfing® e Somatic Experiencing® e durante os últimos 35 anos viajo o mundo dando formações destas duas abordagens em cinco continentes além de manter uma clínica para clientes particulares. Sou também co-fundadora da Associação Brasileira de Rolfistas e da Associação Brasileira do Trauma, e continuo ativamente envolvida com estas duas organizações. Meu compromisso e minha alegria é com a sua integração e seu florescimento.

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